Entenda o que é NFT e suas implicações pro futuro.

Da música ao meme, a ferramenta certifica quase qualquer produção virtual, que passaram a ser vendidas a preços astronômicos (Foto: Reprodução/Edição)
Desde seu surgimento em 2017, o NFT tem levantado novas discussões e dilemas complexos no mercado da arte. A sigla em inglês corresponde a Non-fungible token (Token não-fungível, em tradução livre) e funciona mais ou menos como um certificado de propriedade gerado para um produto digital, garantindo sua originalidade e tornando-o insubstituível. Dessa forma, obras criadas no mundo virtual podem ser marcadas e adquirir um enorme valor agregado devido a sua exclusividade, assim como um quadro legítimo de um pintor famoso.
O NFT pode ser aplicado a quase qualquer produto digital: vídeos, imagens, GIFs, músicas, tuítes; porém foi a vertente das artes visuais a primeira a ser dominada pela nova ferramenta. Em março deste ano, a famosa casa de leilões britânica Christie’s promoveu a venda recorde de NFT mais caro até hoje, por 69,3 milhões de dólares. A obra, intitulada Everydays: The First 5,000 Days (Todos os Dias: Os Primeiros 5000 Dias), é um compilado de ilustrações digitais lançadas diariamente pelo artista americano Mike Winkelmann, conhecido como Beeple, ao longo de quase 14 anos.
Outros exemplos emblemáticos aconteceram no mundo dos memes e virais da internet. Em fevereiro, o Nyan Cat, GIF de um gatinho voando e criando um arco-íris, foi leiloado por quase 600 mil dólares. Já o “disaster girl”, meme da garotinha sorrindo em frente a uma casa em chamas, foi vendido por 473 mil dólares pela própria jovem da foto, Zoe Ruth, atualmente com 21 anos.
Criado em 2011 por Chris Torres, o Nyan Cat se tornou um dos maiores virais da internet. O GIF foi vendido pelo dono após gerar seu NFT (Foto: Reprodução)
Na prática, as pessoas continuam podendo replicar memes e artes infinitamente na internet, porém o NFT indica em código qual é o original, o que se torna um atrativo para colecionadores ou interessados no valor futuro da obra. O grande debate gira em torno de saber se o modelo se consolidará como forma de valorizar artistas digitais ou se não passa de um investimento numa bolha especulativa.
Para o recifense Steve Coimbra, curador de arte e pesquisador de tecnologias, criptomoedas e NFTs, a resposta é um misto das duas possibilidades. “Existe um desejo de exclusividade e principalmente para ser os primeiros a obter aquele tipo de arte e aproveitar uma inserção no mercado. Tem muita gente que já tem background em criptomoeda entrando e comprando muita coisa. Mas nessa valorização ainda tem muita especulação por ser uma coisa nova. Acho que ainda vai amenizar um pouco isso de um meme ser vendido por milhões,  mesmo a cotação das criptomoedas sendo mais volátil.”
Bom para os artistas, ruim para a natureza?
Atualmente, os NFTs são comprados em sua maioria com a criptomoeda Ether, da rede Ethereum, com suporte do blockchain (uma espécie de cartório digital). Além de verificar a autenticidade do produto, o blockchain também permite rastrear todas as transações feitas com a arte, garantindo que o criador original continue recebendo royalties das vendas, independentemente de por quantas mãos ela passe.
A nova tecnologia pode ajudar também pequenos artistas musicais a voltarem a ter retorno financeiro diretamente com a música, e não apenas com shows e produtos derivados. O ganho recebido por execuções nas plataformas de streaming para quem tem poucos clicks é baixíssimo se comparado ao valor de venda dos direitos da música com a nova ferramenta.
Contudo, o maior problema criado por esse mercado emergente de NFTs, assim como o de criptomoedas, está no elevado custo computacional. O processo de “mintar” (criar o NFT para uma peça) gera um gasto de energia enorme e, consequentemente, a queima de combustíveis fósseis a um nível preocupante. Figuras como Bill Gates, criador da Microsoft, já criticaram os possíveis danos ambientais que os bitcoins podem promover ao planeta.
O curador de arte e produtor musical Steve Coimbra começou a estudar sobre o mercado de criptomoedas ainda em 2016 (Foto: Divulgação)
Steve reconhece o alerta e a atenção que devemos ter com essa febre, mas enxerga uma possibilidade de correção nas constantes atualizações ou no uso de criptomoedas mais modernas além da Ethereum, que é de segunda geração. “Essa terceira geração que possibilita criações e transações de NFTs já vem com um sistema que exige menos energia. Cada moeda dessas que vai se adaptando e cada atualização implementada no sistema de blockchain tende a ter uma melhoria nesse quesito de sustentabilidade”.
Com apoio da Secult-PE, Steve se reuniu na última terça (11) com o estudioso de novas tecnologias, Rafael Araújo, e o cofundador da plataforma Phonogram.ME, Lucas Mayer, para um debate sobre a revolução dos NFTs. A live com a bate-papo continua disponível no canal de Youtube da secretaria (www.youtube.com/SecultPE).